Tudo aponta para que o regresso à normalidade deixe de ser uma miragem num horizonte longínquo. O processo de vacinação está em marcha (não tão acelerada como estava previsto, mais ainda assim a correr bem) e prevê-se que a imunidade de grupo possa estar garantida até ao final do Verão. Esperemos que sim!

Pessoalmente, estou ansioso por pegar numas cartas reais, estar com as pessoas, respirar o ambiente dos clubes de bridge. Acredito, no entanto, que nada fique como antes, o que não tem de ser necessariamente mau. Muita coisa no nosso ambiente competitivo, nas prioridades das Instituições que regem a modalidade, no nosso comportamento pessoal e na forma como vivemos o movimento associativo requeria mudanças radicais antes da pandemia e, por razão acrescida, no que vamos encontrar no pós-pandemia.

Quem me conhece sabe que sempre entendi que qualquer movimento associativa só se constrói dentro das Instituições. E as Instituições, no que ao bridge diz respeito, são compostas por praticantes, Clubes, Associações Regionais e FPB, exactamente pela ordem em que estão na estrutura piramidal que regula a modalidade.

Por outro lado é conhecido o distanciamento que a maioria destes agentes sempre manifestou relativamente aos destinos da modalidade. Cada vez é mais complicado encontrar pessoas com disponibilidade para participar activamente na vida federativa, cada vez é mais frequente verificar que as energias de muitos são canalizadas para campanhas críticas contra os poucos que vão dando a cara e o seu trabalho pro buono nas diferentes estruturas.

Olhando comparativamente para a capacidade interventiva de muitos praticantes nas redes sociais (onde, como se sabe, todos têm soluções inteligentes para todos os problemas) e para a participação dos mesmos nos diferentes graus de intervenção efectiva no movimento associativo, rapidamente se percebe a raiz do problema. É muito fácil disparar críticas (algumas num tom mais ou menos desprezível, outras manifestando uma total ignorância sobre os problemas que têm de enfrentar os que tentam fazer alguma coisa) que ajudar a construir soluções.

Para uns tudo se resume a um exercício de má-língua, para outros uma eructação resultante de uma má digestão. Para o desenvolvimento da modalidade a mais-valia é pior que nula, porque destrói sem construir, porque critica sem apontar soluções, porque tantas e tantas vezes derrapa para o insulto pessoal. No meio de tudo isto sobram os que de forma silenciosa vão dando ao bridge o que sabem e podem dar.

Vem este desabafo a propósito dos últimos dados disponíveis sobre o licenciamento dos praticantes e sobre a participação institucional na vida federativa. Terminado que está o prazo para o licenciamento de praticantes, verifica-se que existem menos de 500 com taxa paga, dos quais mais de 300 pertencem a Clubes licenciados na ARBL. Quanto aos Clubes verifica-se que apenas 11 clubes estão esta época inscritos na ARBL, dois deles sem número de praticantes suficientes para terem direito a voto. Destes 11 clubes participaram na AG da ARBL apenas 4, a que correspondem 110 dos 270 votos possíveis. Esta AG, embora destinada à discussão e aprovação do Relatório e Contas de 2020, tinha na sua Ordem de Trabalhos um ponto para se discutirem outros assuntos e era aqui que deveriam ser discutidos todos os assuntos que entopem a “rádio alcatifa”. 

A pandemia veio abrir uma janela de oportunidade para um desenvolvimento sustentado da modalidade, podendo conferir-lhe uma visibilidade que nunca teve até ao momento. Com o aparecimento de plataformas online com novas funcionalidades surgiu uma nova janela de opções para o bridge de competição. É urgente reformular o calendário desportivo à luz desta nova realidade que permitirá, por exemplo, criar provas de apuramento mais alargadas. No CREO, organizado pela ARBL, está a participar, pela primeira vez, uma equipa de Évora. Este é um bom exemplo do que se pode fazer para trazer para a modalidade novos clubes e novos praticantes. Para justificar aos que vivem longe dos centros de decisão que vale a pena ser licenciado na FPB.

Muito se fala da segurança e da verdade desportiva. Mas será que, com todas as ferramentas existentes nas provas online, nomeadamente a possibilidade de recolha de dados, voz a voz, carta a carta e daí poder definir comportamentos padrão que possam configurar situações de ilegalidade, existe menos segurança que nas provas ao vivo em que os jogadores se amontoam em mesas coladas umas às outras com uma logística que torna impossível um controlo efectivo das salas de torneio por parte do árbitro?

Será que as saídas dos jogadores das salas de torneio entre posições e onde são comuns as discussões de mãos jogadas com a consequente transmissão de informações conferem maior credibilidade aos resultados desportivos?

Significa isto que devemos abandonar os torneios ao vivo? Claro que não. O que defendo é que é não só possível como imprescindível que se comece a olhar para o bridge online como um parceiro sério para as nossas actividades. Significa que é a partir de agora possível desenhar um plano estruturado e consolidado de formação e de captação de novos praticantes. Significa que temos agora à nossa disposição uma ferramenta para crescer, para trazer mais gente para a prática do bridge.

Assim o permitam as forças que sempre apostaram na estagnação como forma de garantir a manutenção do status quo. Assim seja o desígnio dos novos dirigentes e assim o entendam os responsáveis dos clubes de bridge.

Que seja um rápido regresso à normalidade, mas a uma normalidade mais ousada, mais eficaz e mais direccionada para o desenvolvimento da modalidade que amamos. Assim o desejo.

Luis Oliveira