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A FUNÇÃO EDUCATIVA E SOCIAL DO BRIDGE
Por Elsa Cagner

Um dos objectivos da Federação Italiana de Bridge é o de aumentar o interesse na modalidade e o seu número de praticantes. No programa educativo para jovens, as balizas da sua actuação são as seguintes:
- desenvolver o ensino do Bridge
- contribuir para melhorar a qualidade dos serviços de formação nas Escolas
- desenvolvimento das sinergias necessárias para um bom relacionamento com os restantes departamentos escolares
- oferta de novas oportunidades de treino e formação, de acordo com as necessidades específicas
- reforço da componente de treino orientado.

PONTOS DE REFERÊNCIA

Ao analisar a função educativa do Bridge, devemos identificar os pontos essenciais do actual sistema de ensino, que tem acompanhado as mudanças radicais na sociedade e, consequentemente, nas Escolas. Os pontos principais são:
1. A centralização da instrução e educação, instrumento essencial para as políticas de desenvolvimento social, cultural e ocupacional. Um dos objectivos da nova Escola deve ser o de aumentar o nível cultural dos programas de formação e de treino. O irremissível valor educativo da cultura no desenvolvimento da personalidade é, por todos, reconhecido. O conhecimento não é mais uma ferramenta apenas ao alcance de alguns escolhidos. A necessidade de conhecimento é uma condição prioritária para todos. O cenário económico mudou radicalmente: o mercado de trabalho está em constante evolução, a mobilidade tornou-se parte do sistema, as pessoas necessitam constantemente de aprender coisas novas. Na esfera social o fenómeno da droga, delinquência e crime organizado são efeitos directos da pobreza cultural.
2. A transformação do conceito tradicional de conhecimento - tem de haver uma forte ligação entre as disciplinas de estudo a implementar e o desenvolvimento de potencialidades práticas essenciais para os alunos de amanhã. Na Escola equipada para o futuro, capaz de criar nos seus alunos uma mentalidade dinâmica e aberta e de os fazer acompanhar a evolução da sociedade, o conhecimento não pode ser definido nem balizado em disciplinas estáticas, mas antes no desenvolvimento de capacidades múltiplas, envolvendo a articulação entre diferentes disciplinas e métodos de ensino. O cidadão de amanhã terá de ser capaz de entender e de tomar decisões, de estar aberto a processos de integração ao nível social e profissional. Um novo ambiente pedagógico e melhores métodos de ensino têm de avaliar, simultaneamente, os aspectos cognitivo, social, emocional e relacional de qualquer tipo de aprendizagem. Em função desta mudança do conhecimento no âmbito do ensino, a utilização de estruturas educativas variadas é fundamental. O alargamento dos horizontes e as cada vez mais frequentes mudanças sociais e profissionais necessitam de um conhecimento orientado para a nova realidade.
3. Vivendo em sistemas complexos - na incerteza do mundo contemporâneo, o conhecimento desempenha um papel fundamental no desbravar dos horizontes individuais. Sendo cada vez mais difícil prever quais as disciplinas que vão ser sujeitas a maior desenvolvimento e em que direcção irá caminhar a pesquisa uma coisa é, no entanto, clara: a transmissão de conhecimento codificado é inaceitável. Num tempo em que as certezas diminuem, a Escola do futuro tem de saber como desenvolver a capacidade individual para tomar decisões. Cada competência tem de ser subordinada à necessidade de um pensamento global no complexo novo mundo. O problema de uma área de formação perde o seu carácter local e torna-se parte de um quadro complexo.

A FUNÇÃO SOCIAL E EDUCATIVA DO BRIDGE

Experiências e estudos anteriores reconheciam ao Bridge uma importante função educativa na sociedade moderna, uma vez que tinha efeitos positivos, quer na esfera sócio - emocional quer na esfera cognitiva.
- No Bridge existe uma fortíssima componente de desenvolvimento de relações sociais: precisamente por se tratar de um jogo de pares e equipas, o que contribui para a criação de um espírito colectivo e fortalece o sentimento de pertencer à Instituição (Escola), melhorando o relacionamento com parceiros, professores e com as próprias estruturas escolares. É exactamente a criação deste ambiente que contribui para o envolvimento dos alunos e para estimular a sua motivação.
- O Bridge promove a capacidade de construir uma identidade pessoal, uma vez que permite a cada um adquirir uma série de características comportamentais. Tratando-se de um jogo de simulações, permite a cada um experimentar novas situações que, sempre que encaradas de forma súbita, no mundo real, podem provocar ansiedade excessiva e ser rejeitadas pelo medo do fracasso. A simulação garante a cada um a protecção para consequências demasiado negativas, em função do que é feito ou dito ao longo do jogo.
- O Bridge ajuda a adquirir novos conhecimentos e melhora a capacidade individual para estudar novas disciplinas: de acordo com as teorias cognitivas, na fase de aprendizagem é melhor adquirir competências utilizando material neutro, que estar sujeito à ansiedade de testar novas experiências em tempo real. O Bridge é, não só, um elemento neutro mas também extremamente cativante no seu aspecto lúdico. O que é ensinado de forma agradável é mais fácil de aprender.

O BRIDGE E O AMBIENTE DE RELAÇÕES SOCIAIS E AFECTIVAS

1- O forte elemento do jogo na socialização e agregação
Até há bem pouco tempo, a Escola italiana sub-avaliou todos os aspectos de empatia social, que ligavam a criança à Escola, oriundos da cultura anglo-saxónica. Na nossa Escola esses aspectos eram excluídos, uma vez que eram considerados como pertencendo a uma cultura secundária ou a fenómenos marginais; no entanto, estes aspectos, oferecem uma importante contribuição para a socialização da criança.
Pela sua própria natureza, um jogo envolve um forte elemento de socialização e agregação e contribui, de forma determinante, para criar um espírito colectivo. No Bridge, ao contrário do xadrez, por exemplo, o jogo envolve a construção de um relacionamento com o parceiro; os dois indivíduos do par aceitam-se mutuamente, ultrapassando naturais diferenças entre eles.
" O Bridge não é apenas um jogo de cartas que alimenta o espírito, mas é também um veículo para estar acompanhado e para romper com o isolamento: desde que ensino Bridge, sinto estar a ajudar as pessoas a conhecerem-se" (Di Stefano).
É um jogo que cria laços fortes: é jogado em equipa, em colaboração com outros. Torna-se vital conhecer o parceiro, construir a parceria, sacrificar parte da personalidade individual em favor da do parceiro, estabelecer relações com outras pessoas, assimilar hábitos, comportamentos, costumes e mentalidades diferentes, criando relações interactivas com outras pessoas. Requer esforço, entusiasmo, compreensão, concentração e vontade de vencer, num trabalho de equipa.
Algumas das leis do Bridge, estimulam a necessidade de diálogo e de comunicação, factores importantes no ensino e na construção de válidas e duradoiras relações. O estudo e assimilação das leis, cria as bases de interacção e cooperação entre participantes, representando o núcleo principal das primeiras fases do programa de ensino do Bridge.
Outro elemento positivo na questão da socialização é o facto de não existirem limitações à participação, factor discriminatório presente em quase todos os restantes desportos. O Bridge promove o emparceiramento de pessoas de idades, sexo, raças, níveis culturais e personalidades diferentes.
2 - O jogo reforça o relacionamento com as Instituições de ensino
Uma actividade não curricular, como é o caso do Bridge, contribui para o fortalecimento dos laços entre o aluno e o ambiente escolar. O progressivo envolvimento dos alunos é um factor fundamental para a melhoria de relacionamento com o meio.
Nesta melhoria de identificação do aluno com a Escola, a relação professor - aluno é também melhorada. Ensinar Bridge a jovens alunos, ou aprender com eles, permite o desenvolvimento de um cada vez melhor relacionamento, com maiores probabilidades de alcançar os objectivos formativos propostos pela Escola.
3 - Um maior envolvimento aluno - escola dilui a imagem da escola - poder e estimula a aprendizagem
Mostra a experiência que melhorar o relacionamento aluno - professor e criar laços com a Escola, fora das obrigações curriculares, pode ser uma forma de combater o mais perigoso dos problemas do ensino - a falta de determinação, que origina um total desinteresse na aprendizagem e uma quebra de comunicação e reciprocidade de interesses entre o aluno e a Escola.
Muitas crianças reflectem a falta de determinação a partir dos seus insucessos, convencendo-se que não têm hipótese de vencer. Nestes casos, as experiências positivas noutra direcção podem mudar o seu comportamento.
Através do Bridge, mesmo desde o início da sua aprendizagem, qualquer um pode notar o aumento de interesse do aluno em saber mais sobre algo que requer raciocínio lógico, capacidade de análise, memória, determinação e autocontrolo e fornece resultados imediatos, de acordo com a qualidade do jogo.
O aspecto lúdico e competitivo do Bridge estimula a participação entusiástica e contribui para a criação do elemento fulcral em qualquer actividade: a motivação para aprender

O BRIDGE E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE

O jogo permite, regra geral:
- Aumentar a auto-estima: o jogo transmite à equipa ou aos parceiros resultados muito importantes que envolvem a partilha de objectivos e promovem os comportamentos positivos. Alcançar um objectivo aumenta a confiança e a estima em si próprio.
- O Bridge dilui o tradicional distanciamento professor - aluno. O progresso individual ou da equipa é medido em função dos resultados obtidos, dispensando avaliações subjectivas do professor, que aqui desempenha um papel bem diferente do habitual.
- Por outro lado, o Bridge dá oportunidade de experimentar novas formas de comportamento perante os problemas, de arriscar cometer de erros para melhorar o desempenho pessoal.
O Bridge contribui para:
1- Criar e reforçar a capacidade de decidir, que é a base para a autonomia activa e consciente. A simulação é particularmente eficaz na resolução de problemas que implicam processos de tomadas de decisão. O desenvolvimento da capacidade individual de decidir representa um dos principais objectivos da Escola. O Bridge é muito eficaz no desenvolvimento destas capacidades. Com efeito, habitua o praticante a optar, a ser flexível no processo de escolha, a aceitar modificá-las em caso de erro, a adquirir novos conhecimentos e valores. Daqui resulta o aumento da capacidade em procurar soluções alternativas para os problemas. Conferir a alguém a possibilidade de experimentar situações reais constitui a oportunidade para identificar capacidades necessárias para gerir novas situações, para testar novos conhecimentos antes e durante a simulação e testar tácticas e estratégias na resolução de problemas. Tudo isto acontece num ambiente lúdico, que permite um maior relaxamento do aluno na abordagem dos problemas, sem medo de ser penalizado por possíveis erros.
2- Desenvolver a capacidade de comparar - jogar com um parceiro, gerir relacionamentos, comparar resultados, permite:
- despertar para o papel de cada um dos intervenientes na resolução de determinado problema
- gerir o processo de comparação por forma a auto-avaliar os resultados do seu trabalho e do seu desempenho
Após o jogo, cada jogador tem disponível mais dados sobre o seu comportamento e novos conhecimentos. O objectivo não é tanto identificar vencedores e derrotados mas comparar resultados e estratégias e promover a auto-avaliação no processo de aprendizagem. O facto de jogar com um parceiro permite ao aluno adquirir a capacidade de desenvolver estratégias interpessoais e atitudes sociais compatíveis. Os jovens podem encarar situações sociais novas da forma mais apropriada e acostumarem-se a interagir com os outros.
3- Oferecer a oportunidade de conviver com o erro - aceitar e conviver com o erro não é fácil para os jovens, pelo que a experiência com o Bridge lhes é particularmente útil. Uma vez que o Bridge é um jogo de probabilidade e erro em que pensar alcançar a perfeição é pura utopia. Por esta razão o Bridge é tão fascinante, quer para os jogadores mais evoluídos, quer para os que o jogam ocasionalmente. Saber usar a experiência e os erros cometidos é, sem dúvida, contribuir para evitar traumas com os falhanços com que os jovens vão ter de lidar na vida real
4- Oferecer a oportunidade de conviver com as derrotas - os jovens não estão preparados para aceitar as derrotas. Ao primeiro revés não sabem, regra geral, como reagir. Esta é a altura em que necessitam de mais força. A desmotivação é uma tentação. Deixar-se arrastar, adormecer, desistir. Mas viver é saber lidar com o insucesso, como em qualquer competição. Mesmo os melhores perdem algumas vezes. Não se deve cair em depressão. Quem perde tem de usar a derrota para aprender a reagir, por forma a mudar, a criar, a encontrar novos métodos e novas estratégias. Na sua dimensão lúdica, a derrota em Bridge é comum a todos os jogadores, pelo que saber partilhar e discutir o insucesso é uma forma de aprender mais facilmente a geri-lo.
5- Encorajar a aceitação de regras - se nos conseguirmos distanciar, por momentos, do conceito de desporto como uma actividade exclusivamente física, de acção e movimento, podemos encontrar no Bridge todos os componentes do desporto - disciplina, rigor, ética, habilidade, desempenho, competição, espírito competitivo, ultrapassagem de dificuldades, aplicação, estudo, treino, fadiga, sacrifício e stress. Através do Bridge pode-se aferir da importância do respeito pela lei, uma vez que a prática do jogo permite a cada um experimentar e simular situações desde que a condição essencial seja o respeito pelas respectivas regras. As leis constituem a estrutura do jogo, representam um nível de análise ao sistema de referência e propõem mecanismos reais de interacção entre pessoas e situações. Se considerarmos que o fenómeno da intimidação é um dos mais preocupantes no crescimento, podemos entender a utilidade em enfatizar a ideia que a lei é a base da sociedade civil.
6- Estimular a organização racional do estudo - o método aplicado no planeamento de acções no jogo e no leilão, na escolha do timing certo e na identificação das prioridades, permite adquirir o estado mental certo para se perceber a importância da organização em qualquer actividade. Através do conceito de transferência e com a ajuda do professor, o aluno irá transferir o que aprendeu com o jogo para os seus estudos e trabalhos. O Bridge ajuda-os a adquirir um comportamento estratégico: isto significa, não tanto a capacidade de entender as regras mas, principalmente, a capacidade de definir um comportamento coerente, uma estratégia baseada na compreensão da estrutura implícita do jogo. Desta forma são activadas as aptidões lógicas tais como a capacidade de considerar múltiplas variáveis e tomar decisões com base em predições, ou de compreender a dimensão simbólica que faz do jogo uma simulação e entender o modelo como sendo interpretativo de processos reais.
7- Preparar para o mundo do trabalho - vários estudos internacionais enfatizam que das dificuldades de integração dos jovens no mercado de trabalho, as relacionadas com a capacidade teórica no desempenho (conhecimentos, utilização de ferramentas de trabalho...) são bem menos significativas que as derivadas da incapacidade de encaixe no novo ambiente. De facto, a forma como se lida com a experiência profissional é considerada uma qualidade decisiva para o sucesso na carreira e o seu desenvolvimento sócio-psicológico. A contínua análise de recursos durante um jogo de Bridge e a correcta definição de objectivos, é um modelo que reproduz, em pequena escala, mas de forma exacta, algumas actividades profissionais e os problemas com elas relacionados.

O BRIDGE E AS CAPACIDADES COGNITIVAS

Alberto Oliviero, professor de psico-biologia numa Universidade de Roma, afirma que a grande derivação actual reside entre a estrutura mental dos jovens alunos e o tipo de ensino adoptado pela Escola, caracterizado pela simplificação e total ausência de actividades concretas. A nossa Escola, ao contrário das Escolas do Norte da Europa, é caracterizada pela total ausência de processos concretos, de procedimentos, de pequenas actividades e de capacidade de observação. Não podemos esquecer que a simplificação grosseira e falta de motivação induz à alienação escolar.
Falta de objectividade e inexistência de emoções e empatias podem ser eliminadas com pequenas acções. É apenas uma questão de mentalidade e de redireccionar atenções para uma maior objectividade. As técnicas de simulação são válidas desde que, em conjunto com a redução ou neutralização de tensões e frustrações que caracterizam a fase de aprendizagem, possam fornecer os meios para experimentar actividades concretas.
Através do Bridge, os alunos têm a oportunidade de utilizar activamente as noções aprendidas, de desenvolver capacidades como a dedução por inferência, que representa uma forma de pensamento comum a todos os campos da vida e permite transferir para outros os conhecimentos adquiridos num determinado enquadramento.
Desta maneira, existe uma osmose entre o conhecimento específico e interdisciplinar, sem se negar a peculiaridade e especificidade do primeiro.
O processo de aprendizagem deve permitir ao estudante colocar a si próprio problemas e analisar hipóteses, de acordo com as formas de pensamento características do assunto em estudo.
Aprender toma assim a forma de capacidade de gerir métodos, teorias, conceitos e técnicas através da utilização de modelos; o Bridge, graças também ao adquirir de uma atitude questionadora, favorece a aprendizagem, exactamente pela sua objectividade e pela possibilidade de exercitar uma série de características úteis para o estudo.
Por aumentar o grau de liberdade, o Bridge permite adquirir conhecimento e melhorar qualitativa e quantitativamente capacidades paralelas, normalmente difíceis de alcançar com práticas didácticas tradicionais.
Vamos então examinar, de forma mais precisa, como pode o Bridge melhorar a estrutura cognitiva dos alunos e as capacidades necessárias para melhor resolver os assuntos curriculares. Antes de mais devemos dizer que, todos os componentes do jogo, quer teóricos quer práticos, possuem uma matriz lógica, matemática e estatística e que tais características requerem raciocínio continuado, aumentam a capacidade de análise, forçam constantemente os jogadores a lidar com problemas de estratégia e aumentam a utilização de mnemónicas.
O Bridge, por outro lado, especialmente na fase de carteio ou de análise ao carteio, requer e melhora a coordenação mental do praticante, atenção, concentração, memória e conhecimento técnico, todas elas características desenvolvidas na primeira fase de aprendizagem. Daqui resulta, para a formação, uma maior capacidade analítica e crítica nas fases que se seguem.
Em resumo, podemos citar como capacidades promovidas e desenvolvidas através do bridge, no âmbito cognitivo:
1- Capacidade de comunicar
2- Capacidades lógicas
3- Pré-requisitos para a aprendizagem: atenção, memória
4- Capacidades transversais específicas
Estudos recentes demonstram como a falta destes requisitos são responsáveis pela maioria das dificuldades curriculares dos alunos.

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