Um dos objectivos da Federação
Italiana de Bridge é o de aumentar o interesse na modalidade
e o seu número de praticantes. No programa educativo para
jovens, as balizas da sua actuação são as
seguintes:
- desenvolver o ensino do Bridge
- contribuir para melhorar a qualidade dos serviços de
formação nas Escolas
- desenvolvimento das sinergias necessárias para um bom
relacionamento com os restantes departamentos escolares
- oferta de novas oportunidades de treino e formação,
de acordo com as necessidades específicas
- reforço da componente de treino orientado.
Ao analisar a função educativa
do Bridge, devemos identificar os pontos essenciais do actual
sistema de ensino, que tem acompanhado as mudanças radicais
na sociedade e, consequentemente, nas Escolas. Os pontos principais
são:
1. A centralização da instrução e
educação, instrumento essencial para as políticas
de desenvolvimento social, cultural e ocupacional. Um dos objectivos
da nova Escola deve ser o de aumentar o nível cultural
dos programas de formação e de treino. O irremissível
valor educativo da cultura no desenvolvimento da personalidade
é, por todos, reconhecido. O conhecimento não é
mais uma ferramenta apenas ao alcance de alguns escolhidos. A
necessidade de conhecimento é uma condição
prioritária para todos. O cenário económico
mudou radicalmente: o mercado de trabalho está em constante
evolução, a mobilidade tornou-se parte do sistema,
as pessoas necessitam constantemente de aprender coisas novas.
Na esfera social o fenómeno da droga, delinquência
e crime organizado são efeitos directos da pobreza cultural.
2. A transformação do conceito tradicional de conhecimento
- tem de haver uma forte ligação entre as disciplinas
de estudo a implementar e o desenvolvimento de potencialidades
práticas essenciais para os alunos de amanhã. Na
Escola equipada para o futuro, capaz de criar nos seus alunos
uma mentalidade dinâmica e aberta e de os fazer acompanhar
a evolução da sociedade, o conhecimento não
pode ser definido nem balizado em disciplinas estáticas,
mas antes no desenvolvimento de capacidades múltiplas,
envolvendo a articulação entre diferentes disciplinas
e métodos de ensino. O cidadão de amanhã
terá de ser capaz de entender e de tomar decisões,
de estar aberto a processos de integração ao nível
social e profissional. Um novo ambiente pedagógico e melhores
métodos de ensino têm de avaliar, simultaneamente,
os aspectos cognitivo, social, emocional e relacional de qualquer
tipo de aprendizagem. Em função desta mudança
do conhecimento no âmbito do ensino, a utilização
de estruturas educativas variadas é fundamental. O alargamento
dos horizontes e as cada vez mais frequentes mudanças sociais
e profissionais necessitam de um conhecimento orientado para a
nova realidade.
3. Vivendo em sistemas complexos - na incerteza do mundo contemporâneo,
o conhecimento desempenha um papel fundamental no desbravar dos
horizontes individuais. Sendo cada vez mais difícil prever
quais as disciplinas que vão ser sujeitas a maior desenvolvimento
e em que direcção irá caminhar a pesquisa
uma coisa é, no entanto, clara: a transmissão de
conhecimento codificado é inaceitável. Num tempo
em que as certezas diminuem, a Escola do futuro tem de saber como
desenvolver a capacidade individual para tomar decisões.
Cada competência tem de ser subordinada à necessidade
de um pensamento global no complexo novo mundo. O problema de
uma área de formação perde o seu carácter
local e torna-se parte de um quadro complexo.
Experiências e estudos anteriores reconheciam
ao Bridge uma importante função educativa na sociedade
moderna, uma vez que tinha efeitos positivos, quer na esfera sócio
- emocional quer na esfera cognitiva.
- No Bridge existe uma fortíssima componente de desenvolvimento
de relações sociais: precisamente por se tratar
de um jogo de pares e equipas, o que contribui para a criação
de um espírito colectivo e fortalece o sentimento de pertencer
à Instituição (Escola), melhorando o relacionamento
com parceiros, professores e com as próprias estruturas
escolares. É exactamente a criação deste
ambiente que contribui para o envolvimento dos alunos e para estimular
a sua motivação.
- O Bridge promove a capacidade de construir uma identidade pessoal,
uma vez que permite a cada um adquirir uma série de características
comportamentais. Tratando-se de um jogo de simulações,
permite a cada um experimentar novas situações que,
sempre que encaradas de forma súbita, no mundo real, podem
provocar ansiedade excessiva e ser rejeitadas pelo medo do fracasso.
A simulação garante a cada um a protecção
para consequências demasiado negativas, em função
do que é feito ou dito ao longo do jogo.
- O Bridge ajuda a adquirir novos conhecimentos e melhora a capacidade
individual para estudar novas disciplinas: de acordo com as teorias
cognitivas, na fase de aprendizagem é melhor adquirir competências
utilizando material neutro, que estar sujeito à ansiedade
de testar novas experiências em tempo real. O Bridge é,
não só, um elemento neutro mas também extremamente
cativante no seu aspecto lúdico. O que é ensinado
de forma agradável é mais fácil de aprender.
1- O forte elemento do jogo na socialização
e agregação
Até há bem pouco tempo, a Escola italiana sub-avaliou
todos os aspectos de empatia social, que ligavam a criança
à Escola, oriundos da cultura anglo-saxónica. Na
nossa Escola esses aspectos eram excluídos, uma vez que
eram considerados como pertencendo a uma cultura secundária
ou a fenómenos marginais; no entanto, estes aspectos, oferecem
uma importante contribuição para a socialização
da criança.
Pela sua própria natureza, um jogo envolve um forte elemento
de socialização e agregação e contribui,
de forma determinante, para criar um espírito colectivo.
No Bridge, ao contrário do xadrez, por exemplo, o jogo
envolve a construção de um relacionamento com o
parceiro; os dois indivíduos do par aceitam-se mutuamente,
ultrapassando naturais diferenças entre eles.
" O Bridge não é apenas um jogo de cartas que
alimenta o espírito, mas é também um veículo
para estar acompanhado e para romper com o isolamento: desde que
ensino Bridge, sinto estar a ajudar as pessoas a conhecerem-se"
(Di Stefano).
É um jogo que cria laços fortes: é jogado
em equipa, em colaboração com outros. Torna-se vital
conhecer o parceiro, construir a parceria, sacrificar parte da
personalidade individual em favor da do parceiro, estabelecer
relações com outras pessoas, assimilar hábitos,
comportamentos, costumes e mentalidades diferentes, criando relações
interactivas com outras pessoas. Requer esforço, entusiasmo,
compreensão, concentração e vontade de vencer,
num trabalho de equipa.
Algumas das leis do Bridge, estimulam a necessidade de diálogo
e de comunicação, factores importantes no ensino
e na construção de válidas e duradoiras relações.
O estudo e assimilação das leis, cria as bases de
interacção e cooperação entre participantes,
representando o núcleo principal das primeiras fases do
programa de ensino do Bridge.
Outro elemento positivo na questão da socialização
é o facto de não existirem limitações
à participação, factor discriminatório
presente em quase todos os restantes desportos. O Bridge promove
o emparceiramento de pessoas de idades, sexo, raças, níveis
culturais e personalidades diferentes.
2 - O jogo reforça o relacionamento com as Instituições
de ensino
Uma actividade não curricular, como é o caso do
Bridge, contribui para o fortalecimento dos laços entre
o aluno e o ambiente escolar. O progressivo envolvimento dos alunos
é um factor fundamental para a melhoria de relacionamento
com o meio.
Nesta melhoria de identificação do aluno com a Escola,
a relação professor - aluno é também
melhorada. Ensinar Bridge a jovens alunos, ou aprender com eles,
permite o desenvolvimento de um cada vez melhor relacionamento,
com maiores probabilidades de alcançar os objectivos formativos
propostos pela Escola.
3 - Um maior envolvimento aluno - escola dilui a imagem da escola
- poder e estimula a aprendizagem
Mostra a experiência que melhorar o relacionamento aluno
- professor e criar laços com a Escola, fora das obrigações
curriculares, pode ser uma forma de combater o mais perigoso dos
problemas do ensino - a falta de determinação, que
origina um total desinteresse na aprendizagem e uma quebra de
comunicação e reciprocidade de interesses entre
o aluno e a Escola.
Muitas crianças reflectem a falta de determinação
a partir dos seus insucessos, convencendo-se que não têm
hipótese de vencer. Nestes casos, as experiências
positivas noutra direcção podem mudar o seu comportamento.
Através do Bridge, mesmo desde o início da sua aprendizagem,
qualquer um pode notar o aumento de interesse do aluno em saber
mais sobre algo que requer raciocínio lógico, capacidade
de análise, memória, determinação
e autocontrolo e fornece resultados imediatos, de acordo com a
qualidade do jogo.
O aspecto lúdico e competitivo do Bridge estimula a participação
entusiástica e contribui para a criação do
elemento fulcral em qualquer actividade: a motivação
para aprender
O jogo permite, regra geral:
- Aumentar a auto-estima: o jogo transmite à equipa ou
aos parceiros resultados muito importantes que envolvem a partilha
de objectivos e promovem os comportamentos positivos. Alcançar
um objectivo aumenta a confiança e a estima em si próprio.
- O Bridge dilui o tradicional distanciamento professor - aluno.
O progresso individual ou da equipa é medido em função
dos resultados obtidos, dispensando avaliações subjectivas
do professor, que aqui desempenha um papel bem diferente do habitual.
- Por outro lado, o Bridge dá oportunidade de experimentar
novas formas de comportamento perante os problemas, de arriscar
cometer de erros para melhorar o desempenho pessoal.
O Bridge contribui para:
1- Criar e reforçar a capacidade de decidir, que é
a base para a autonomia activa e consciente. A simulação
é particularmente eficaz na resolução de
problemas que implicam processos de tomadas de decisão.
O desenvolvimento da capacidade individual de decidir representa
um dos principais objectivos da Escola. O Bridge é muito
eficaz no desenvolvimento destas capacidades. Com efeito, habitua
o praticante a optar, a ser flexível no processo de escolha,
a aceitar modificá-las em caso de erro, a adquirir novos
conhecimentos e valores. Daqui resulta o aumento da capacidade
em procurar soluções alternativas para os problemas.
Conferir a alguém a possibilidade de experimentar situações
reais constitui a oportunidade para identificar capacidades necessárias
para gerir novas situações, para testar novos conhecimentos
antes e durante a simulação e testar tácticas
e estratégias na resolução de problemas.
Tudo isto acontece num ambiente lúdico, que permite um
maior relaxamento do aluno na abordagem dos problemas, sem medo
de ser penalizado por possíveis erros.
2- Desenvolver a capacidade de comparar - jogar com um parceiro,
gerir relacionamentos, comparar resultados, permite:
- despertar para o papel de cada um dos intervenientes na resolução
de determinado problema
- gerir o processo de comparação por forma a auto-avaliar
os resultados do seu trabalho e do seu desempenho
Após o jogo, cada jogador tem disponível mais dados
sobre o seu comportamento e novos conhecimentos. O objectivo não
é tanto identificar vencedores e derrotados mas comparar
resultados e estratégias e promover a auto-avaliação
no processo de aprendizagem. O facto de jogar com um parceiro
permite ao aluno adquirir a capacidade de desenvolver estratégias
interpessoais e atitudes sociais compatíveis. Os jovens
podem encarar situações sociais novas da forma mais
apropriada e acostumarem-se a interagir com os outros.
3- Oferecer a oportunidade de conviver com o erro - aceitar e
conviver com o erro não é fácil para os jovens,
pelo que a experiência com o Bridge lhes é particularmente
útil. Uma vez que o Bridge é um jogo de probabilidade
e erro em que pensar alcançar a perfeição
é pura utopia. Por esta razão o Bridge é
tão fascinante, quer para os jogadores mais evoluídos,
quer para os que o jogam ocasionalmente. Saber usar a experiência
e os erros cometidos é, sem dúvida, contribuir para
evitar traumas com os falhanços com que os jovens vão
ter de lidar na vida real
4- Oferecer a oportunidade de conviver com as derrotas - os jovens
não estão preparados para aceitar as derrotas. Ao
primeiro revés não sabem, regra geral, como reagir.
Esta é a altura em que necessitam de mais força.
A desmotivação é uma tentação.
Deixar-se arrastar, adormecer, desistir. Mas viver é saber
lidar com o insucesso, como em qualquer competição.
Mesmo os melhores perdem algumas vezes. Não se deve cair
em depressão. Quem perde tem de usar a derrota para aprender
a reagir, por forma a mudar, a criar, a encontrar novos métodos
e novas estratégias. Na sua dimensão lúdica,
a derrota em Bridge é comum a todos os jogadores, pelo
que saber partilhar e discutir o insucesso é uma forma
de aprender mais facilmente a geri-lo.
5- Encorajar a aceitação de regras - se nos conseguirmos
distanciar, por momentos, do conceito de desporto como uma actividade
exclusivamente física, de acção e movimento,
podemos encontrar no Bridge todos os componentes do desporto -
disciplina, rigor, ética, habilidade, desempenho, competição,
espírito competitivo, ultrapassagem de dificuldades, aplicação,
estudo, treino, fadiga, sacrifício e stress. Através
do Bridge pode-se aferir da importância do respeito pela
lei, uma vez que a prática do jogo permite a cada um experimentar
e simular situações desde que a condição
essencial seja o respeito pelas respectivas regras. As leis constituem
a estrutura do jogo, representam um nível de análise
ao sistema de referência e propõem mecanismos reais
de interacção entre pessoas e situações.
Se considerarmos que o fenómeno da intimidação
é um dos mais preocupantes no crescimento, podemos entender
a utilidade em enfatizar a ideia que a lei é a base da
sociedade civil.
6- Estimular a organização racional do estudo -
o método aplicado no planeamento de acções
no jogo e no leilão, na escolha do timing certo e na identificação
das prioridades, permite adquirir o estado mental certo para se
perceber a importância da organização em qualquer
actividade. Através do conceito de transferência
e com a ajuda do professor, o aluno irá transferir o que
aprendeu com o jogo para os seus estudos e trabalhos. O Bridge
ajuda-os a adquirir um comportamento estratégico: isto
significa, não tanto a capacidade de entender as regras
mas, principalmente, a capacidade de definir um comportamento
coerente, uma estratégia baseada na compreensão
da estrutura implícita do jogo. Desta forma são
activadas as aptidões lógicas tais como a capacidade
de considerar múltiplas variáveis e tomar decisões
com base em predições, ou de compreender a dimensão
simbólica que faz do jogo uma simulação e
entender o modelo como sendo interpretativo de processos reais.
7- Preparar para o mundo do trabalho - vários estudos internacionais
enfatizam que das dificuldades de integração dos
jovens no mercado de trabalho, as relacionadas com a capacidade
teórica no desempenho (conhecimentos, utilização
de ferramentas de trabalho...) são bem menos significativas
que as derivadas da incapacidade de encaixe no novo ambiente.
De facto, a forma como se lida com a experiência profissional
é considerada uma qualidade decisiva para o sucesso na
carreira e o seu desenvolvimento sócio-psicológico.
A contínua análise de recursos durante um jogo de
Bridge e a correcta definição de objectivos, é
um modelo que reproduz, em pequena escala, mas de forma exacta,
algumas actividades profissionais e os problemas com elas relacionados.
Alberto Oliviero, professor de psico-biologia
numa Universidade de Roma, afirma que a grande derivação
actual reside entre a estrutura mental dos jovens alunos e o tipo
de ensino adoptado pela Escola, caracterizado pela simplificação
e total ausência de actividades concretas. A nossa Escola,
ao contrário das Escolas do Norte da Europa, é caracterizada
pela total ausência de processos concretos, de procedimentos,
de pequenas actividades e de capacidade de observação.
Não podemos esquecer que a simplificação
grosseira e falta de motivação induz à alienação
escolar.
Falta de objectividade e inexistência de emoções
e empatias podem ser eliminadas com pequenas acções.
É apenas uma questão de mentalidade e de redireccionar
atenções para uma maior objectividade. As técnicas
de simulação são válidas desde que,
em conjunto com a redução ou neutralização
de tensões e frustrações que caracterizam
a fase de aprendizagem, possam fornecer os meios para experimentar
actividades concretas.
Através do Bridge, os alunos têm a oportunidade de
utilizar activamente as noções aprendidas, de desenvolver
capacidades como a dedução por inferência,
que representa uma forma de pensamento comum a todos os campos
da vida e permite transferir para outros os conhecimentos adquiridos
num determinado enquadramento.
Desta maneira, existe uma osmose entre o conhecimento específico
e interdisciplinar, sem se negar a peculiaridade e especificidade
do primeiro.
O processo de aprendizagem deve permitir ao estudante colocar
a si próprio problemas e analisar hipóteses, de
acordo com as formas de pensamento características do assunto
em estudo.
Aprender toma assim a forma de capacidade de gerir métodos,
teorias, conceitos e técnicas através da utilização
de modelos; o Bridge, graças também ao adquirir
de uma atitude questionadora, favorece a aprendizagem, exactamente
pela sua objectividade e pela possibilidade de exercitar uma série
de características úteis para o estudo.
Por aumentar o grau de liberdade, o Bridge permite adquirir conhecimento
e melhorar qualitativa e quantitativamente capacidades paralelas,
normalmente difíceis de alcançar com práticas
didácticas tradicionais.
Vamos então examinar, de forma mais precisa, como pode
o Bridge melhorar a estrutura cognitiva dos alunos e as capacidades
necessárias para melhor resolver os assuntos curriculares.
Antes de mais devemos dizer que, todos os componentes do jogo,
quer teóricos quer práticos, possuem uma matriz
lógica, matemática e estatística e que tais
características requerem raciocínio continuado,
aumentam a capacidade de análise, forçam constantemente
os jogadores a lidar com problemas de estratégia e aumentam
a utilização de mnemónicas.
O Bridge, por outro lado, especialmente na fase de carteio ou
de análise ao carteio, requer e melhora a coordenação
mental do praticante, atenção, concentração,
memória e conhecimento técnico, todas elas características
desenvolvidas na primeira fase de aprendizagem. Daqui resulta,
para a formação, uma maior capacidade analítica
e crítica nas fases que se seguem.
Em resumo, podemos citar como capacidades promovidas e desenvolvidas
através do bridge, no âmbito cognitivo:
1- Capacidade de comunicar
2- Capacidades lógicas
3- Pré-requisitos para a aprendizagem: atenção,
memória
4- Capacidades transversais específicas
Estudos recentes demonstram como a falta destes requisitos são
responsáveis pela maioria das dificuldades curriculares
dos alunos.